Língua Portuguesa - 9º ano

Olá! Aqui podes encontrar algumas curiosidades, textos informativos e exercícios sobre a matéria de Língua Portuguesa (9ºano). Sempre que considerares pertinente, comenta os textos. Espero que te seja útil. Bom estudo!

7 de março de 2010

O PARVO (Joane)


Os parvos têm, no teatro vicentino, uma função cómica, ocasionada pelos disparates que proferem. Assim acontece neste auto, embora, em certos casos, o Parvo se junte às personagens sobrenaturais para criticar os que pretendem embarcar e sirva, algumas outras vezes, de comentador. Evidentemente que, nos termos desarticulados e sem lógica, ditos pelos parvos, há, por vezes, muito para reflectir e analisar. Tal acontece neste auto.
A decisão do Anjo de acolher o Parvo, na sua barca, está na lógica da doutrina católica: não pode ser responsabilizado pelos seus actos quem nasceu irresponsável.

Mário Fiúza, (adapatado)

O Parvo tem como função dominante emprestar o ridículo a situações alheias a si mesmo. Surge, como alguém que satiriza através do cómico, personagens que se julgam merecedoras da Glória. O Diabo e o Anjo não chegam a assumir a posição de advogados na medida em que não necessitam de justificar a conduta do Parvo que, na sentença do Anjo, viveu sem malícia, mesmo nos seus erros.
Ao contrário das outras personagens, o Parvo não representa qualquer estatuto social ou grupo profissional. O carácter trocista e cómico que o identifica, permite-nos considerar esta personagem como um mero elemento a que o autor recorre para melhor caracterizar a sociedade do seu tempo.


O Onzeneiro


O Onzeneiro enriqueceu à custa dos altos juros, que emprestara aos necessitados – um antepassado dos nosso modernos penhoristas, a quem o Diabo chama, com toda a propriedade, seu “parente”. Apresenta-se com um bolsão que ocupa quase toda a barca. O Onzeneiro informa-nos que vai vazio, certamente porque não pudera trazer com ele todo o dinheiro que deixou escondido no fundo de uma arca. Mas é só neles que pensa e chega a pedir ao Diabo que o deixe voltar ao mundo para ir buscá-los. Mas ali, no espaço para além da vida, apresenta-se tão pobre sequer dispõe de uma moeda para pagar ao barqueiro.

Mario Fiúza (adaptado)

Repara no seguinte poema de Bocage:


Velho avarento

Levando um velho avarento

Uma pedrada num olho,

Pôs-se-lhe no mesmo instante

Tamanho como um repolho.


Certo doutor, não das dúzias,

Mas sim médico perfeito,

Dez moedas lhe pedia

Para o livrar do defeito.


“Dez moedas! (diz o avaro)

Meu sangue não desperdiço

Dez moedas por um olho

O outro dou eu por isso.”


Agora, tenta encontrar semelhanças entre a intenção crítica de Gil Vicente ao criar a personagem Onzeneiro e este poema de Bocage.



5 de março de 2010

O FIDALGO (D. Anrique)


Gil Vicente apresenta o Fidalgo com toda a sua vaidade e presunção. Ricamente vestido e seguido de um pajem que lhe soerguia a cauda do manto e lhe transportava uma cadeira de espaldas. Habituado a gozar de privilégios especiais, o Fidalgo nem sequer pensa que poderá ir para o Inferno. Assim, para justificar o seu direito a entrar na barca celestial, apresenta apenas ao Anjo, como único argumento, a sua condição social (“Sou fidalgo de solar/ é bem que me recolhais”).
Ao fidalgo parece-lhe a barca infernal “um cortiço”, isto é, uma barca muito ordinária e reles para transportar um nobre tão poderoso e importante como ele. Mas o Anjo e o Diabo formulam as suas críticas, que se podem resumir assim:
• Que ele vivera a seu prazer, ou seja, que fizera tudo quanto quisera;
• que se entregara aos prazeres;
• que fora tirano;
• que desprezara o povo.
Para demonstrar que ele vivera a seu prazer, analisa Gil Vicente a vida sentimental do Fidalgo, repartida entre duas mulheres: a esposa e a amante. No entanto, é traído tanto por uma como por outra, já que cada uma delas tinha o seu amante. Não se trata, portanto, de um pormenor secundário mas de um elemento essencial para a caracterização do tipo e da sociedade em que estava inserido.
Gil Vicente não condena só este aristocrata, mas todos os seus antepassados, como afirma o Diabo quando informa o Fidalgo que passará para o Inferno assim com “passou vosso pai”, isto é, o autor generaliza e condena a nobreza como classe social.
O pajem que acompanha o Fidalgo não entra em nenhuma das barcas. Porquê? Evidentemente porque não representa um tipo, uma alma de um defunto, mas um simples elemento caracterizador. No entanto, a sua função simbólica é muito importante pois representa um elemento do povo, a principal vítima da opressão da nobreza.

Mário Fiúza, op .cit. (adaptado)

1 de março de 2010

"Auto da Barca do Inferno"


A obra Auto da Barca do Inferno foi escrita por Gil Vicente em 1517, sendo considerada um auto de moralidade. As moralidades eram peças cujas personagens eram simbólicas e encarnavam vícios ou virtudes com o objectivo de moralizar a sociedade.
Gil Vicente viveu numa época dominada pelos Descobrimentos e as suas consequências a nível social. A agricultura estava sem braços, além de esmagada pelos impostos senhoriais. Nos grandes burgos, como Lisboa, ninguém queria trabalhar. Existiam uma massa de gente corrompida pelo luxo. A imoralidade invadia todos os estratos sociais.Gil Vicente observou, compreendeu e analisou toda essa sociedade comprometida pelo luxo, pela riqueza e pela ociosidade e não poupou ninguém às suas críticas. Com toda a naturalidade, espontaneidade e comicidade, Gil Vicente foca os mais diversos assuntos, divertindo ao mesmo tempo que tece uma forte crítica aos vícios de todas as classes sociais do seu tempo. Lendo-se as peças vicentinas, é o povo português de há quatrocentos anos que roda ante os nossos olhos. Clérigos nada exemplares, frades folgazões, fidalgos tiranos, magistrados ignorantes e corrompidos, esposas infiéis, parvos, alcoviteiras… todos se encontram tão bem definidos que ainda hoje nos parecem se nossos conhecidos. É enorme a galeria das personagens vicentinas.
As personagens desta peça são: o Diabo e o seu Companheiro, o Anjo, o Fidalgo e o seu Pajem, o Onzeneiro, o Parvo, o Sapateiro, o Frade acompanhado da Moça, a Alcoviteira, o Judeu, o Corregedor, o Procurador, o Enforcado e os Quatro Cavaleiros.O Pajem e a Moça são apenas figurantes que ajudam a caracterizar as personagens que acompanham. O Diabo e o Anjo são personagens simbólicas e representam o Mal e o Bem, respectivamente. Todas as outras personagens são personagens-tipo.
A personagem-tipo é uma personagem plana cujo comportamento está em coerência com as qualidades e os defeitos da classe, da profissão ou do grupo social a que pertence. Apresenta-se em palco acompanhada de símbolos cénicos que a identificam. A personagem-tipo tem um nome próprio que não a individualiza, apenas a nomeia. A linguagem utilizada por estas personagens é também um sinal distintivo da sua condição social.

Gil Vicente




Gil Vicente nasceu no reinado de D. Afonso V, alguns anos depois de 1465, e faleceu entre 1536 e 1540. Ignora-se a profissão e a condição social de Gil Vicente. O nome de Vicente, que não é fidalgo, sugere uma origem popular ou burguesa (…). Quanto à profissão, aceita-se geralmente que este Gil Vicente é o famoso ourives do mesmo nome que cinzelou a custódia de Belém, mas é difícil conciliar a formação de um ourives nesta época com a de um homem de letras como é o nosso autor. Há um genealogista do século XVI, que faz de Gil Vicente mestre de retórica do rei D. Manuel, o que é mais aceitável. O certo é que durante cerca de trinta e cinco anos o nosso autor foi, nas cortes de D. Manuel I e D. João III, uma espécie de organizador responsável pelos espectáculos. Os seus autos nasceram a partir das festividades.
É certo que também alcançou, nas cortes de D. Manuel e de D. João, uma situação de prestigio e de influência que lhe permitiu certas liberdade e audácias. Foi esta situação privilegiada que tornou possível a Gil Vicente pregar aos frades de Santarém um sermão, em 1531, em que os censurava por terem alarmado a população da cidade fazendo-lhe crer que o terramoto ocorrido em Fevereiro desse ano fora uma manifestação da ira de Deus por se consentirem em Portugal os cristãos-novos. Neste sermão, explicou Gil Vicente aos frades que o terramoto era um fenómeno natural, e que os judeus deviam ser convertidos, sem violência, pela persuasão.
Gil Vicente soube aproveitar a sua influência na corte para fazer uma crítica atrevida de diversos vícios sociais, especialmente os que estavam relacionados com a nobreza e o clero. Mas fazia-o aparentemente ou realmente de acordo com o rei, a quem interessava por vezes castigar certos abusos, e que, frequentemente, entrou em conflito com o clero.
A carreira teatral de Gil Vicente termina em 1536, com a representação da Floresta de Enganos. Depois da sua morte a corte manteve fielmente o valimento que lhe dera em vida, e os seus autos continuaram a ser representados. A viúva de D. João III protegeu, contra a Inquisição, a publicação completa das suas obras em 1562.

António José Saraiva, in Prefácio a Teatro de Gil Vicente, Portugália Ed. (adaptado)

Algumas das suas obras mais importantes:
Auto da Barca do Inferno; • Auto da Índia; • Farsa de Inês Pereira; • Auto da Feira; • Auto da Alma; • Quem tem farelos?